A LIBERDADE DE IMPRENSA NO BRASIL E NO MUNDO
Destaques: Jornalistas sofrem tentativa de intimidação no RS e no AM. Juiz manda retirar do ar matéria da FSP. Mais um assassinato de profissional no México. Exército israelense mata mais três comunicadores em Gaza.
NOTAS DO BRASIL
Manaus (AM) – O jornal Folha de S. Paulo teve de retirar matéria de seu site por ordem do juiz Paulo Fernando Feitoza, do Tribunal de Justiça do AM (TJ-AM). A reportagem publicada em 20 de janeiro abordava o processo de análise do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) sobre um projeto de crédito de estoque de carbono que tem como investidores parentes de Daniel Vorcaro, do Banco Master. Na decisão, o magistrado ordenou a retirada do ar do texto da Folha, de uma reprodução do mesmo texto pelo Jornal de Brasília, e também de um post da Folha no X (ex-Twitter). Feitoza, que atendeu a pedido de um diretor do Incra, declarou que o autor da ação conseguiu comprovar “que as publicações impugnadas extrapolam o dever de informar e imputam ao autor conduta funcional irregular, capaz de macular sua honra objetiva e imagem profissional, notadamente no exercício de cargo público de elevada responsabilidade”. O jornal deve recorrer da decisão. Organizações defensoras da liberdade de imprensa repudiaram a decisão.
São Borja (RS) - O portal Fronteira 360 divulgou em 15 de janeiro a tentativa de intimidação sofrida pela sua equipe, em especial, o comunicador Maicon Schlosser, após reportagens sobre mortes recentes durante ações da Brigada Militar no estado do RS. Depois da publicação de matéria sobre a morte de um homem em surto durante uma abordagem policial em Santa Maria, a equipe recebeu uma mensagem com teor agressivo, ofensivo e ameaçador. O repórter também passou a receber mensagens privadas com ironias, xingamentos e um convite explícito ao confronto físico. O autor, que se identificava como policial militar, escreveu em um dos trechos: “Caso algum familiar ou ‘algum bunda mole’ fale mal da Brigada, me contate ou venha me visitar, se for homem. Podem vir mais de um me visitar”. O Sindicato de Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors) e a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) divulgaram nota de solidariedade ao profissional e ao portal e de repúdio às ameaças.
São Paulo (SP) - O jornalista Leandro Demori, do canal do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) no YouTube, se livrou de queixa-crime movida pelo portal Brasil 247, por decisão da juíza Sirley Tonello, da 27ª Vara Criminal do Foro Central Criminal da Barra Funda. O Brasil 247 sustentava na inicial que o jornalista havia cometido difamação ao dizer num programa do ICL que o portal recebeu dinheiro de big techs como o Google para se manifestar de forma contrária ao Projeto de Lei 2.630/2020, popularmente conhecido como PL das Fake News. Com o entendimento de que um veículo de imprensa deve ter maior tolerância a críticas do que qualquer outro tipo de empresa, a juíza rejeitou a queixa-crime observando que não ficou demonstrado que a afirmação do jornalista foi direcionada de forma individualizada ao Brasil 247, com a finalidade específica de imputar à empresa fato ofensivo.
Parintins (AM) - O repórter Gabriel Abreu, da TV Norte, foi vítima de tentativa de intimidação por parte da delegada Marna de Miranda, titular da Delegacia Especializada do município localizado a 369 km da capital do estado. A policial civil encaminhou um áudio ao profissional em 20 de janeiro, afirmando que ele deve ser investigado por ter tido acesso a um processo que tramita em segredo de Justiça. O áudio, no qual Marna ameaça abertura de investigação contra o repórter, foi encaminhado, após ele questionar a autoridade sobre possível representação pela prisão preventiva de um investigado por suspeita de ter estuprado uma criança no município. Durante a conversa com a delegada, Abreu informou que havia obtido a íntegra do processo que tramita sob sigilo no Tribunal de Justiça (TJ-AM). “Gabriel, muito me assusta a tua afirmação de dizer que teve acesso a todo esse inquérito, porque ele corre em segredo de justiça. Então, qualquer informação que vá à mídia sobre isso, eu já sei que você leu e teve acesso. Você possivelmente vai ser investigado para saber como foi que você teve acesso a um processo que está em sigilo”, respondeu a policial ao questionamento do jornalista. Em 2022, Marna já havia empurrado e danificado equipamentos de profissionais do Portal Imediato durante a cobertura de um caso de homicídio no bairro Compensa, Zona Oeste de Manaus.
PELO MUNDO
Israel – Os repórteres Mohammed Qashta, Abdul Shaath e Anas Ghanim foram mortos pelo exército israelense em 21 de janeiro. Os profissionais foram alvejados em um ataque contra o carro em que estavam, enquanto filmavam para uma iniciativa humanitária do governo egípcio na cidade de Zahraa, na região central da Faixa de Gaza. Imagens do local após o ataque mostram o veículo atingido claramente identificado com o logotipo do Comitê Egípcio. O número de jornalistas mortos subiu para 260 desde o início da guerra.
México I - O jornalista Ernesto Martínez, do portal Los Noticieristas, foi agredido e ameaçado por agentes da Secretaria de Segurança Pública de Sinaloa enquanto tentava realizar uma cobertura jornalística em 19 de janeiro. Martínez estava na rodovia Maxipista Culiacán–Mazatlán para cobrir um confronto entre agentes e civis, no qual uma pessoa morreu. Quando começou a gravar, os agentes de segurança se aproximaram e exigiram que ele parasse. Mesmo informando que era jornalista, os policiais começaram a bater em seu carro para obrigá-lo a descer. Depois o seguraram pelo pescoço e rasgaram seu colete de identificação profissional. Além disso, exigiram que ele entregasse seu celular e depois o liberaram.
México II – O repórter Carlos Leonardo Castro, colaborador do portal informativo Código Norte Veracruz e anteriormente do Noreste, foi assassinado a tiros na noite de 8 de janeiro, enquanto se encontrava no interior de um restaurante chamado La Troguebirria, em Poza Rica, estado de Veracruz. Segundo testemunhas, indivíduos desconhecidos surpreenderam o jornalista, supostamente à sua espera no local, e dispararam contra ele repetidas vezes, causando sua morte ali mesmo. O crime ocorre em um contexto de agressões, ameaças e denúncias de assédio judicial contra repórteres em diferentes regiões de Veracruz.
México III - A jornalista María Luisa Ruiz, diretora e fundadora do Expresión, Principio de la Comunicación, foi detida em 13 de janeiro por policiais de Santiago Miahuatlán, no estado de Puebla, após ser acusada de “usurpação de funções”. A prisão ocorreu enquanto a comunicadora realizava uma transmissão ao vivo e documentava a atuação policial durante uma detenção em via pública. Os fatos viralizaram nas redes sociais, onde é possível ver a repórter confrontando um policial que exigia uma identificação oficial do veículo de comunicação para o qual ela trabalha. Apesar dela se identificar, os agentes prosseguiram com a prisão sob o argumento de que a mulher não conseguiu comprovar sua atividade profissional naquele momento. A jornalista relatou ter sido empurrada, agredida e socada ao entrar nas instalações municipais, além de ter recebido ameaças de ser denunciada ao Ministério Público. Segundo a ONG Article 19, a prisão foi ordenada pelo diretor municipal de Segurança Pública, Benigno Valencia Pérez. Além disso, a ONG pediu ao governo de Puebla que garantisse proteção e assistência médica à jornalista, libertada logo em seguida.
Filipinas - A repórter comunitária e locutora Frenchie Cumpio que estava presa há quase seis anos foi condenada em 22 de janeiro a 18 anos em regime fechado, pela acusação de financiar o terrorismo. Diversas ONGs e uma relatora da Organização das Nações Unidas (ONU) classificaram a sentença como uma "farsa da Justiça". French Cumpio e Marielle Domequil foram detidas em fevereiro de 2020 por crimes relacionados a armas, acusadas de posse de uma pistola e uma granada. Na época de sua prisão, ela era diretora-executiva do site de notícias Eastern Vista e apresentadora da rádio Aksyon Radyo-Tacloban DYVL. Mais de um ano depois, foram acusadas de financiamento do terrorismo, o que poderia resultar em até 40 anos de prisão. O caso foi acompanhado por órgãos de defesa dos direitos humanos, entre eles a Fundação Clooney para a Justiça, de George e Amal Clooney, que questionou em outubro passado a prisão prolongada, os "repetidos adiamentos e a lentidão do processo". A relatora especial da ONU Irene Khan advertiu que as acusações contra Frenchie pareciam ser "uma retaliação por seu trabalho como jornalista".
Cuba – O jornalista independente Henry Constantín, diretor do La Hora de Cuba e vice-presidente regional da Comissão de Liberdade de Imprensa da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), foi libertado em 16 de janeiro em Havana, após permanecer 44 horas detido sem acusações. Constantín explicou que sua detenção coincidiu com o velório dos cubanos falecidos na Venezuela, em um contexto de alta tensão política e forte esquema de segurança na capital. Durante o período em que esteve detido, o jornalista permaneceu incomunicável, e ninguém soube onde ele se encontrava até sua libertação e retorno para casa.
Argentina - O Fórum de Jornalismo Argentino (Fopea) denuncia que o ano de 2025 foi o mais crítico para a liberdade de imprensa no país, com 278 ataques contra jornalistas, um aumento de 55% em relação a 2024. Em relatório recente também identifica agressões físicas, assédio judicial e virtual, especialmente contra mulheres jornalistas, e restrições ao acesso à informação. Uma análise do Fopea sobre a retórica presidencial nas redes sociais encontrou insultos recorrentes e uma estratégia de desumanização que, de acordo com a organização, abre espaço para a violência a partir de níveis inferiores de poder.
Venezuela – Os comunicadores Ramón Centeno, Rafael García Márvez, Carlos Marcano, Víctor Ugas, Leandro Palmar e do técnico Belises Cubillán foram libertados, informou, em 14 de janeiro, o Colégio Nacional de Jornalistas (CNP), seção Caracas. Juntamente com o Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Imprensa (SNTP), as entidades também confirmaram as solturas de Roland Carreño, Carlos Julio Rojas, Nakary Mena, Gianny González, Julio Balza e Luis López. Na rede social X, o CNP informou sobre as libertações, embora não tenha detalhado se eles foram soltos com medidas cautelares.
Bolívia - Repórteres e cinegrafistas foram hostilizados, xingados e agredidos fisicamente por manifestantes convocados pela Central Operária Boliviana (COB), em 5 de janeiro, durante a tentativa de cobertura de marchas e bloqueios na cidade de La Paz. Um cinegrafista da Red Uno sofreu várias chicotadas. Na praça San Francisco, mulheres e homens que gritavam palavras de ordem contra o presidente Rodrigo Paz, hostilizaram e ofenderam os repórteres.
Peru - O jornalista Eric Hurtado
foi agredido em 5 de janeiro enquanto realizava cobertura jornalística na
província de Chincha. O comunicador
informava sobre o falecimento de um cidadão, quando foi abordado de forma violenta
por um indivíduo. O agressor, supostamente familiar da pessoa falecida, teria
ameaçado previamente outro jornalista e, em seguida, agrediu Eric Hurtado,
segurando-o pelo pescoço, em plena via pública.
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A Associação Riograndense de Imprensa (www.ari.org.br) disponibiliza o correio eletrônico imprensalivre@ari.org.br aos profissionais e estudantes da comunicação social para as denúncias envolvendo atentados ao livre exercício da profissão de jornalista.
Fontes:
ARI (www.ari.org.br), ABI (www.abi.org.br), Fenaj (www.fenaj.org.br), ANJ
(www.anj.org.br), Observatório da Imprensa (www.observatoriodaimprensa.com.br),
Abert (www.abert.org.br), Abraji (www.abraji.org.br), Portal Imprensa
(www.portalimprensa.com.br), Rede em Defesa da Liberdade de Imprensa
(www.liberdadedeimprensa.org.br), Portal Coletiva (www.coletiva.net), Portal
dos Jornalistas (https://www.portaldosjornalistas.com.br/), Jornalistas &
Cia (https://www.jornalistasecia.com.br/),
https://mediatalks.uol.com.br, Consultor Jurídico
(https://www.conjur.com.br/areas/imprensa), Sociedade Interamericana de
Imprensa (Miami), Federação Internacional de Jornalistas (www.ifj.org)
(Bruxelas), Sindicato dos Jornalistas de Portugal (www.jornalistas.eu)(Lisboa),
ONG Repórteres Sem Fronteiras (www.rsf.org) (Paris), Portal Comunique-se
(portal.comunique-se.com.br), Comitê de Proteção aos Jornalistas (Nova Iorque),
Centro Knight para o Jornalismo nas Américas (knightcenter.utexas.edu), ONG
Campanha Emblema de Imprensa (PEC), FreedomHouse (www.freedomhouse.org),
Associação Mundial de Jornais (www.wan-ifra.org), Comissão Interamericana de
Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA)
(http://www.oas.org/pt/cidh/), Fórum Mundial dos Editores, https://forbiddenstories.org/,
https://www.mfrr.eu/, https://www.onefreepresscoalition.com/press e outras
instituições e entidades de defesa do livre exercício da profissão de
jornalista.
Pesquisa
e edição: Vilson Antonio Romero (RS)
vilsonromero@yahoo.com.br